Arquivo da categoria: Cult

Amargura – Paulo Coelho

No meu livro “Veronika decide morrer”, que se passa em um hospital psiquiátrico, o diretor desenvolve uma tese a respeito de um veneno indetectável que contamina o organismo com o passar dos anos: o vitríolo.

Assim como a libido – o líquido sexual que o Dr. Freud reconhecera, mas nenhum laboratório fora jamais capaz de isolar, o vitríolo é destilado pelos organismos de seres humanos que se encontram em situação de medo. A maioria das pessoas afetadas identifica seu sabor, que não é doce nem salgado, mas amargo – daí as depressões serem profundamente associadas com a palavra Amargura.

Todos os seres têm Amargura em seu organismo – em maior ou menor grau – da mesma maneira que quase todos temos o bacilo da tuberculose. Mas estas duas doenças só atacam quando o paciente acha-se debilitado; no caso da Amargura, o terreno para o surgimento da doença aparece quando se cria o medo da chamada “realidade”.

Certas pessoas, no afã de querer construir um mundo onde nenhuma ameaça externa pudesse penetrar, aumentam exageradamente suas defesas contra o exterior – gente estranha, novos lugares, experiências diferentes – e deixam o interior desguarnecido. É a partir daí que a Amargura começa a causar danos irreversíveis.

O grande alvo da Amargura (ou Vitríolo, como preferia o médico do meu livro) é a vontade. As pessoas atacadas deste mal vão perdendo o desejo de tudo, e em poucos anos já não conseguem sair de seu mundo – pois gastaram enormes reservas de energia construindo altas muralhas para que a realidade fosse aquilo que desejavam que fosse.

Ao evitar o ataque externo, também limitam o crescimento interno. Continuam indo ao trabalho, vendo televisão, reclamando do trânsito e tendo filhos, mas tudo isso acontece automaticamente, sem que entendam direito porque estão se comportando assim – afinal de contas, tudo está sob controle.

O grande problema do envenenamento por Amargura reside no fato de que as paixões – ódio, amor, desespero, entusiasmo, curiosidade – também não se manifestam mais. Depois de algum tempo, já não restava ao amargo qualquer desejo. Não tinham vontade nem de viver, nem de morrer, este era o problema.

Por isso, para os amargos, os heróis e os loucos são sempre fascinantes: eles não têm medo de viver ou morrer. Tanto os heróis como os loucos são indiferentes diante do perigo, e seguem adiante apesar de todos dizerem para não fazerem aquilo. O louco se suicida, o herói se oferece ao martírio em nome de uma causa – mas ambos morrem, e os amargos passavam muitas noites e dias comentando o absurdo e a glória dos dois tipos. É o único momento em que o amargo tem força para galgar sua muralha de defesa e olhar um pouquinho para fora; mas logo as mãos e os pés cansam, e ele volta para a vida diária.

O amargo crônico só nota a sua doença uma vez por semana: nas tardes de domingo. Ali, como não tem o trabalho ou a rotina para aliviar os sintomas, percebem que alguma coisa está muito errada.”

Texto retirado do blog de Paulo Coelho. Para segui-lo no twitter clique aqui.

2 Comentários

Arquivado em Cult, DispērsuS

O ABC da mulher

Kvindens ABC (O ABC da mulher) – Ursula Reuter Christiansen – 1871

Museu Nacional de Arte – Copenhage/Dk

Clique na foto para aumentá-la.

Deixe um comentário

Arquivado em Cult, Sobre a Dinamarca

Problemas de ortografia?

3 Comentários

Arquivado em Cult, DispērsuS

Visita ao Louisiana Museu

Em meados deste mês meu marido, meus sogros e eu fomos visitar o Museu Louisiana de Arte Moderna situado em Humlebæk, grande Copenhage. Fundado em 1958, ele conta com uma coleção permanente de mais de 3000 trabalhos e recebe exposições temporárias de 4 a 6 vezes por ano. Seu idealizador, patrono e orientador full time foi o empresário queijeiro Knud W. Jensen, cujo desejo era aproximar a arte do público em geral com a exposição de obras modernistas dinamarquesas, que aos poucos foram abrindo espaço para trabalhos internacionais.

A história por trás do nome do museu é bem pitoresca. Chamava-se Louisiana a vila do século XIX onde ele foi instalado. Assim nomeada porque seu primeiro proprietário, Alexander Brun, foi casado 3 vezes e todas as suas esposas atendiam pelo nome de Louise.

UM POUCO DO QUE VIMOS:

Na horizontal: Jeune fille vénétienne MARTIAL RAYSSE; Figures in landscape ROY LICHTENSTEIN; A closer Grand Canyon DAVID ROCKNEY; ?:

Swimmer-reflection NEIL JENNEY; Marilyn Monroe ANDY WARHOL; Déjeuner sur l’herbe & Le joueur de cartes II Pablo PICASSO; Dobbeltansigtet & Titania II ASGER JORN:

Pres foelger pres PER INGE BJOERLO; Sem titulo HEIN HEINSEN Reclining figure HENRY MOORE; Spider couple LOUISE BOUGEOIS; Le grand pouce CESAR:

Também tivemos a oportunidade de conferir a exposição Green Architecture for the futere, que apresenta novas invenções, materiais e métodos elaborados para uma arquitetura sustentável. Nela o Brasil foi representado pela cidade de Curitiba e pela Favela da Rocinha. A primeira citada como um exemplo a ser seguido e a segunda como objeto de estudo do arquiteto Frederic Druot.

Nossa tarde no Louisiana foi muito agradável. Além de ter tirado umas beliscadas da arte moderna, apreciamos a bela vista do museu para o estreito de Øresund. Aliás, a arquitetura do local foi tão bem elaborada que adiciona a natureza adjacente a seu acervo, horas emoldurada por enormes paredes e corredores de vidro.

2 Comentários

Arquivado em Cult, Sobre a Dinamarca, Welcome to my life